Trump amplia cota para importação de carne moída sem tarifa; Brasil é beneficiado

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta sexta-feira, 21, que permitirá a importação de até 300 mil toneladas de carne moída dentro de uma cota que não paga tarifas, numa tentativa de reduzir os preços ao consumidor americano antes das eleições de meio de mandato de novembro. O republicano não deu detalhes sobre a origem das importações, mas o Brasil é hoje o segundo maior exportador de carnes para os EUA, e o anúncio da medida impulsionou as ações de frigoríficas brasileiras.
A medida vale por 90 dias. “Hoje, concluí um acordo para reduzir substancialmente o preço da carne moída para as famílias trabalhadoras americanas”, disse Trump em uma publicação nas redes sociais. "Temos o compromisso de que essa carne será vendida a um preço 25% inferior aos preços de mercado atuais", acrescentou.
Trump conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por mais de uma hora na manhã desta sexta-feira. Ainda não está claro se a conversa foi antes ou depois do anúncio sobre a carne moída.
Os papéis da Minerva, que é a maior exportadora de carne bovina da América do Sul, lideraram os ganhos entre os frigoríficos na Bolsa brasileira. O Banco Safra avaliou a suspensão como ligeiramente positiva para a empresa.
As ações chegaram a saltar mais de 5% no início dos negócios e, por volta das 12h30, horário de Brasília, subiam 4,71%, a R$ 4. No mesmo horário, os papéis da JBS avançavam 2%, a R$ 39, enquanto os da Marfrig tinham alta de 2,85%, a R$ 18,79.
Em relatório, o UBS BB avaliou ser negativa a medida para frigoríficos americanos, como os da JBS e MBRF, além de potencialmente negativa para a indústria de aves. "Ainda não está claro se as exportações brasileiras conseguirão se beneficiar. O volume de 300 mil toneladas equivale a cerca de 2% da demanda anual de carne bovina dos EUA e a cerca de 11% das importações do país, disse o banco.
Procuradas, Minerva, JBS e MRBF disseram que não comentam temas setoriais. Em nota, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) disse que uma eventual ampliação da cota tarifária pode beneficiar o Brasil.
A entidade, no entanto, informou que não recebeu informações oficiais sobre como a medida anunciada pelo governo americano será implementada e quais países poderão ser contemplados.
Procurada pela reportagem, a Casa Branca não respondeu.
EUA enfrenta escassez de gado
A medida sobre as importações — que equivale a cerca de 2% do consumo doméstico anual dos EUA, de aproximadamente 13 milhões de toneladas — é a mais recente tentativa do presidente de conter os preços da carne bovina, que dispararam em meio a uma forte escassez de gado no país. Os custos de produção mais altos e pastagens secas dificultaram a criação de animais pelos pecuaristas.
Trump já vinha tentado aumentar as importações de carne bovina, inclusive ampliando a quantidade que a Argentina poderia exportar com tarifas mais baixas. O Departamento de Agricultura americano projetou no início deste mês que as importações responderão por uma fatia recorde da oferta de carne bovina dos EUA neste ano.
Impacto: Trump recorreu a Milei para reduzir preço de carne nos EUA. E agora os argentinos pagam mais caro
As próximas eleições, que determinarão o controle do Congresso, provavelmente dependerão em grande medida da percepção dos eleitores sobre a economia, com o aumento dos custos de alimentos, saúde, serviços públicos e moradia no centro das atenções. Os preços de itens básicos como carne bovina, ovos e gasolina têm um peso particularmente grande na forma como os consumidores percebem a inflação.
Pesquisas mostram que o Partido Republicano de Trump enfrenta dificuldades para manter o controle do Congresso, com eleitores insatisfeitos com a condução da economia pelo presidente e com a guerra no Irã, que provocou uma disparada dos preços dos combustíveis.
Importações dos EUA
As principais origens das importações de carne bovina dos EUA no primeiro semestre foram Austrália e Brasil, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA. Os EUA permitem que alguns países enviem anualmente determinada quantidade de carne bovina sem tarifa. Os embarques que ultrapassam essas cotas ficam sujeitos a alíquotas mais elevadas.
Veja a lista dos principais fornecedores dos EUA e o volume de carne vendida para o mercado americano entre janeiro e junho deste ano:
Austrália: 250 mil toneladas
Brasil: 234 mil toneladas
Canadá: 178 mil toneladas
México: 156 mil toneladas
Nova Zelândia: 126 mil toneladas
Uruguai: 68 mil toneladas
Nicarágua: 46 mil toneladas
Argentina: 46 mil toneladas
Paraguai: 43 mil toneladas
Fonte: Departamento de Agricultura dos EUA (USDA)
Avanço da Argentina
Os embarques da Argentina, impulsionados por Trump no ano passado, mais do que dobraram no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. A oferta estrangeira costuma ser composta por sobras de carne bovina mais magras, que são misturadas a produtos americanos com maior teor de gordura para atingir a proporção adequada entre gordura e carne magra na produção de carne moída.
Além de importar mais carne, os EUA também estão prestes a retomar as importações de gado vivo do México, que ficaram em grande parte suspensas por mais de um ano devido à disseminação de um parasita que afeta o gado.
As medidas da Casa Branca ocorrem num momento em que os primeiros sinais de recomposição do rebanho bovino dos EUA ainda são fracos demais para proporcionar qualquer alívio imediato. Frigoríficos, pressionados pelo aumento do custo do gado, tiveram de fechar unidades para reduzir a competição por animais escassos, incluindo uma medida anunciada na semana passada pela Tyson Foods.
“O anúncio de hoje e outras intervenções no mercado jogam baldes de água fria na perspectiva de expansão do rebanho e sacrificam a estabilidade de longo prazo em prol de mensagens de curto prazo”, disse a Associação Nacional de Produtores de Carne Bovina (NCBA) em um comunicado, acrescentando que os mercados “já caíram acentuadamente” em uma época do ano crítica para os pecuaristas que tentam tomar decisões sobre seus rebanhos.
A incerteza — seja por causa da seca, dos custos de produção ou dos preços dos insumos — é a principal razão pela qual os pecuaristas hesitam em reconstruir seus rebanhos, uma vez que a venda dos animais promete retornos imediatos, enquanto mantê-los para reprodução é um compromisso financeiro de vários anos.
** Com Agências **

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