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Milhares são detidos após Escritório de Refugiados compartilhar dados de menores com ICE


Crianças que chegam desacompanhadas aos EUA ficam sob responsabilidade do ORR
Crianças que chegam desacompanhadas aos EUA ficam sob responsabilidade do ORR

WASHINGTON - Mais de 12 mil imigrantes foram detidos pelo ICE com base em informações fornecidas pelo Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR) durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. A maioria das prisões aconteceu após a agência compartilhar dados de menores que entraram os Estados Unidos desacompanhados.


O ORR foi criado em 1980 para reassentar refugiados que fugiam de guerras e perseguições. Desde o início dos anos 2000, a agência também ficou encarregada de acolher crianças migrantes que chegam pela fronteira com o México.


Até o ano passado, o cuidado com essas crianças foi mantido separado das ações de fiscalização migratória. Uma lei de 2008 buscou garantir que elas fossem colocadas em ambientes menos restritivos e liberadas da detenção assim que fosse seguro fazê-lo, independentemente da situação migratória de seus responsáveis.


Dessa forma, as famílias podiam se reunir sem medo de serem alvo do ICE, mesmo quando seus membros estivessem no país ilegalmente.


A administração Trump mudou drasticamente a abordagem. Desde janeiro de 2025, o ORR compartilhou mais de 460 mil informações ("leads") com o ICE sobre crianças desacompanhadas, seus patrocinadores — geralmente pais ou outros parentes — e demais membros da residência, deixando-os vulneráveis ​​à detenção e à deportação.


Segundo Jen Smyers, que atuou como vice-diretora do ORR durante o governo Biden, as salvaguardas contra o compartilhamento de dados com o ICE foram “completamente revertidas”.


“Eles estão instrumentalizando um programa de bem-estar infantil para fins de deportação”, observa.


Em comunicado à agência de notícias Reuters, o ORR afirma que “não desempenha nenhum papel na apreensão de crianças”, encaminhando as perguntas sobre a aplicação das leis de imigração ao Departamento de Segurança Interna (DHS), órgão ao qual o ICE está subordinado.


Ao ser questionado sobre o assunto, o DHS respondeu que, durante o segundo mandato de Trump, “o ORR forneceu ao departamento de investigação do ICE possíveis pistas de investigação”, como parte de um esforço para localizar crianças desacompanhadas que foram colocadas com “patrocinadores não verificados”, incluindo alguns com antecedentes criminais.


Mas não é o que a história de uma mexicana retrata. A mulher, que não vai ser identificada na reportagem por questão de segurança, entrou nos EUA durante o governo Biden e se estabeceleu no Mississipi como faxineira.


A filha de seis anos atravessou a fronteira em agosto e ficou até janeiro sob a tutela do ORR.


Ao longo de seis meses, a mãe forneceu à agência uma vasta documentação, incluindo um teste de DNA e outras evidências de que ela não tem antecedentes criminais.


Sob a gestão de Trump, o processo de triagem de patrocinadores agora inclui várias etapas adicionais, como a exigência de impressões digitais de todos os membros da residência.


Como consequência, o tempo que crianças desacompanhadas passam sob custódia aumentou de uma média de 30 dias no ano fiscal de 2024 para 194 dias em junho de 2026, segundo dados do ORR.


Na véspera de reencontrar a filha, Aurora conta que agentes de imigração foram até sua casa, perguntaram sobre a menina e lhe disseram para comparecer a um escritório do ICE na semana seguinte.


Ela e a filha foram detidas durante o atendimento — conforme indicam os registros — e enviadas para um centro de detenção para famílias em Dilley, no Texas, onde permaneceram por três semanas.


Aurora agora usa uma tornozeleira eletrônica e precisa se apresentar periodicamente ao ICE enquanto aguarda o desfecho de seu processo na corte de imigração.


Durante o período em que estava detida, o proprietário do imóvel onde morava no Mississippi a despejou e descartou seus pertences. Agora, mãe e filha moram na Califórnia, onde uma amiga se ofereceu para hospedá-las.


Aurora diz temer que elas sejam deportadas em breve. Às vezes, durante a noite, a filha "levanta e chora, achando que ainda está detida", conta a mãe.


** Com Reuters **


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