Fim de proteção coloca haitianos na mira do ICE
- Rádio Manchete USA

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Atualizado: há 9 horas

BOSTON - Relatos de apreensão contam a ralidade de milhares de haitianos que estão na mira do ICE após o fim da proteção (Temporary Protection Status, TPS) anunciado pelo governo dos Estados Unidos em julho.
Uma enfermeira que não tem mais permissão para trabalhar em um dos principais hospitais de Boston se mantém recolhida em casa com medo de que agentes da polícia de de imigração que circulam pelo bairro da capital de Massachusetts.
Moradores do leste de Maryland se depararam com uma cena perturbadora: carros abandonados em postos de gasolina, com os motores ainda ligados.
“Eles estão prendendo pessoas por toda parte, algumas no meio das ruas. … Temos pessoas que foram ao supermercado comprar comida para preparar para os filhos e não voltaram para casa”, disse a Dra. Marie D. Fouché, fundadora e diretora-executiva da Safe Harbor Circles, uma organização de Salisbury que oferece apoio a imigrantes.
Nas semanas desde que a Suprema Corte abriu caminho para que o governo Trump encerrasse as proteções contra deportação de cerca de 350 mil haitianos, e nos dias desde que um juiz de um tribunal inferior tomou uma medida jurídica importante que tornou a decisão oficial, uma nova realidade começou a se desenhar nas comunidades que ainda mantinham esperança de uma reviravolta de última hora.
As autoridades federais têm sido bastante reservadas sobre os detalhes desta fase da ofensiva do governo contra a imigração, afirmando repetidamente que não comentarão operações em andamento ou futuras. Elas não divulgaram dados sobre quantos haitianos foram detidos desde o fim do TPS. E, até sábado (8), grupos de defesa dos imigrantes que acompanham de perto os voos de deportação não haviam registrado nenhum voo com destino ao Haiti nas duas semanas anteriores.
Mas o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, afirmou na semana passada que as operações contra haitianos beneficiários do TPS estavam em andamento.
“Estamos indo atrás deles agora. … Essas pessoas podem se deportar voluntariamente ou nós vamos prendê-las e mandá-las de volta. É simples assim”, disse ele à NewsNation na terça-feira (4).
As operações de fiscalização contra ex-beneficiários do TPS, incluindo haitianos, aumentaram no fim de julho e devem continuar, disseram duas fontes com conhecimento das operações.
Pelo menos cinco pessoas entraram em contato na semana passada com a organização de defesa dos imigrantes Haitian Bridge Alliance para relatar que parentes ou pessoas próximas haviam sido detidos em diferentes partes dos EUA.
A diretora-executiva da organização, Guerline Jozef, diz que relatos envolveram prisões de ex-beneficiários do TPS, muitos deles estavam dirigindo quando se depararam com agentes do ICE, no Arizona, Califórnia, Indiana e Maryland.
Cartas deixam uma comunidade apreensiva
Moradores de um dos mais recentes e conhecidos territórios haitianos do país dizem que ainda não perceberam um aumento nas prisões realizadas pelo ICE. Springfield ganhou atenção nacional depois que o presidente Donald Trump acusou, sem fundamento, os haitianos da cidade de comerem animais de estimação durante um debate eleitoral em 2024.
Líderes comunitários de Springfield dizem que a presença crescente do ICE que muitos temem ainda não se concretizou. Centenas de cartas do DHS (Departamento de Segurança Interna), porém, têm chegado pelo correio e deixado a comunidade apreensiva.
“Por favor, compareça ao escritório indicado abaixo, no horário e local informados, para tratar de um assunto oficial”, dizem as cartas.
Segundo Dorsainvil, aqueles que compareceram aos escritórios do ICE após receber os avisos foram obrigados a usar tornozeleiras eletrônicas que permitem às autoridades rastrear sua localização, e muitos receberam datas para comparecer ao tribunal dentro de aproximadamente um mês.
As tornozeleiras fazem parte de um programa do ICE amplamente utilizado, conhecido como “alternativas à detenção”. Mas Dorsainvil afirma que para muitos haitianos os dispositivos evocam a dolorosa história das correntes usadas durante a escravidão, e que ele e outros defensores dos imigrantes tentaram, sem sucesso, convencer as autoridades de que as tornozeleiras não eram necessárias.
Agora, segundo ele, muitos haitianos se veem diante não apenas da pressão social de não poder trabalhar e sustentar suas famílias, mas também da pressão psicológica causada por um tratamento que consideram desumanizante.
“É tão… humilhante”, afirma.
Questionado sobre as cartas e as tornozeleiras, um porta-voz do DHS disse que o TPS sempre foi concebido como uma medida temporária e mencionou o programa de autodeportação do governo, que oferece auxílio financeiro a imigrantes sem documentação que optem por deixar o país.
“O que diríamos agora é que está na hora de partir, o que significa que você não precisa ir para casa, mas não pode ficar aqui”, disse o porta-voz. “A boa notícia é que ainda não é tarde demais para receber um cheque de US$ 2.600 e uma passagem gratuita para voltar para casa.”
Voltar ao Haiti não é uma opção
Mas para a maioria voltar para o Haiti significa morrer. Uma enfermeira de 29 anos em Boston disse à CNN que voltar ao Haiti agora está fora de questão para ela e para muitas outras pessoas que deixaram o país caribenho após um terremoto devastador em 2010 e que, de longe, assistiram horrorizadas à escalada da violência de gangues, que tornou o país cada vez mais perigoso.
“Não há empregos. A maioria dos hospitais foi tomada por gangues ou destruída, e… a economia não está bem. Não temos líderes nem governo. É simplesmente muito inseguro”, disse a enfermeira, que pediu anonimato porque, agora, sem o TPS, teme pela própria segurança.
Ela passou mais da metade da vida nos EUA e trabalhou durante oito anos como enfermeira em um dos principais hospitais de Boston. Na semana passada, porém, foi obrigada a se afastar do trabalho depois que sua autorização de trabalho expirou.
Desde que o governo Trump anunciou pela primeira vez o fim do TPS, ela vem lidando com a possibilidade de perder seu status. Segundo ela, essa experiência tem sido como passar por um ciclo interminável das etapas do luto.
Atualmente, ela está concentrando seus esforços na busca por empregos de enfermagem no exterior, na esperança de que outro país lhe dê a oportunidade de usar as habilidades que se esforçou tanto para aprender antes que as medidas de repressão à imigração nos EUA se intensifiquem ainda mais.
“Ruim para a economia”
Muitas empresas foram duramente afetadas pela perda de funcionários haitianos nas últimas semanas, segundo Rebecca Shi, diretora-executiva da American Business Immigration Coalition.
A organização representa CEOs e associações dos setores de indústria, saúde, cuidados com idosos, construção, agricultura e hotelaria. Shi afirma que pelo menos dois de seus integrantes foram particularmente afetados pelo fim do TPS para haitianos: um resort na Flórida, que perdeu mais de 150 funcionários, e um centro para idosos em Massachusetts, que perdeu mais de 50 empregados.
Ela afirma que os efeitos já estão se espalhando e observa que algumas casas de repouso agora consideram fechar alas por falta de funcionários, depois de perder tantos trabalhadores.
“Os trabalhadores americanos que fazem parte dessas equipes não estão apenas sentindo falta de seus colegas e companheiros de trabalho, mas também estão ficando esgotados. Eles estão assumindo uma carga de trabalho muito maior porque um quarto da força de trabalho desapareceu”, afirmou.
** Com Agências **

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